– Central de relacionamento de TV a cabo, Mariana falando, em que posso ajudá-la?
– Oi, eu quero fazer uma reclamação!
– Pois não, senhora. Qual o problema?
– Quero saber quem foi que sumiu com o Sony.
– Ele está fora do ar?
– Fora do ar? Não sei se ele está fora do ar, espero que não, moça. Eu só sei que vocês sumiram com o meu gato.
– Não entendi, senhora. Pode explicar melhor?
– É o seguinte: algum técnico daí foi em minha casa ontem e me deixou só com um gato!!! Entendeu?!?
– Mas nossa! Ainda restou um?
– Como assim, ainda restou um? Já estou maluca por terem sumido com um deles.
– Sinto muito, senhora, mas temos a obrigação de exterminar todos os gatos ilegais.
– Meus gatos não são ilegais. Você está maluca?
– Senhora, todos os gatos são ilegais.
– Olha aqui, moça, pode parar com esta palhaçada? Vou te falar uma coisa: eu não sou nada sem meus gatos. Tenho 36 anos, nunca fui casada, não tenho namorado, não tenho filhos, meus pais já morreram, minha única alegria são o Sony e a Warner, eles são os únicos que me fazem companhia e eu o quero de volta?
– Sinto muito, senhora, mas isto não é desculpa para se ter um gato em casa.
– Mas eu não preciso de desculpas para ter um gato, qualquer pessoa pode ter um gato!
– Não, senhora, não pode não. Além disto, vou ter que programar alguém para ir à sua casa amanhã e exterminar o seu outro gato.
– O quê? Que absurdo! Que ameaça é esta? Olha aqui: eu vou processar vocês. Isto é um absurdo!! Quero falar com seu supervisor.
– Não vai adiantar nada falar com ele. Ele te dirá a mesma coisa que eu.
– EU QUERO FALAR COM SEU SUPERVISOR!! AGORA!!
– Se acalme senhora, vou passar pra ele.
Turuurururu, turururu, turururu...
– Gerente Marcos falando. No que posso ser útil?
– Olha, Marcos, acabei de falar com uma de suas atendentes, e ela me desrespeitou, não levou a sério meu problema.
– E qual foi o problema, senhora?
– O problema é que eu tenho dois gatos e um deles sumiu e eu quero que vocês tomem uma providência agora!!! Está me ouvindo, eu não vivo sem o Sony.
– Como é que é? Ainda te deixaram um gato? Como a senhora conseguiu esses gatos?
– Como? Vocês estão loucos? Os gatos são meu, eu que os arranjei.
– Olha, senhora, terei que mandar outro técnico à sua casa para que ele elimine este outro gato.
– Eliminar? Como assim, “eliminar”? Foi isto que vocês fizeram com meu outro gato, vocês o eliminaram? Meu Deus!! Meu gato, meu gato! Como vou passar o dia sem ver o Sony?
– Calma, senhora. Vamos fazer o seguinte: não precisa ficar assim. Amanhã o técnico vai aí e desativa seu outro gato e nós não daremos queixa da senhora. Quando a senhora puder, pode contratar nossos serviços e então poderá ter o Sony e a Warner e o que mais quiser. Combinado?
Pu... pu... pu...pu...pu.
– Senhora? Alô! Senhora?
Em um pequeno apartamento, uma senhora senta-se ao chão, as lágrimas caem pelo rosto, ao seu lado uma gata angorá chamada Warner ronrona e se esfrega em suas pernas pedindo atenção, ela acaricia suas orelhas e sussurra quase que para ela mesma:
– Warner, minha gatinha, eles eliminaram seu irmãozinho Sony, e agora? O que faremos? Eles querem te levar também... Eles estão me chantageando, eles querem que eu pague para tê-lo de volta. Mas eu não vou deixar. Eu vou à polícia, eles vão ver só.
***
– Em que posso ajudá-la, senhora?
– Eles tiraram meu Sony, seu delegado, e agora querem a Warner.
– Quem é Sony, e quem é Warner, minha senhora?
– Os gatos, senhor, os gatos que tenho em casa.
– Gato? A senhora sabia que ter gato é crime?
***

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